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Leitura

POR Pe. José Adalberto Salvini.

A indagação de Jesus aos filhos de Zebedeu ecoa como um desafio perene aos discípulos de todos os tempos. O cenário desse questionamento é o anúncio do Mistério Pascal, prestes a cumprir-se em Jerusalém. Na tradição bíblica e profética, o “cálice” frequentemente simboliza o destino reservado por Deus — ora como o Cálice da Salvação, ora como o Cálice da Ira¹ (Is 51,17) que o Servo Sofredor aceita tomar sobre si para redimir a humanidade.

Nesse contexto, Jerusalém surge como a cidade que, sob o pretexto de ser “Santa”, tornara-se o epicentro de um sistema sociopolítico e religioso excludente. A cidade personificava o status quo que, para autopreservar seus privilégios de casta, historicamente “mata os profetas e apedreja os enviados” (Mt 23,37). Até mesmo a súplica da mãe dos filhos de Zebedeu, ao reivindicar lugares de honra para seus filhos, revela o quanto a lógica dos privilégios pessoais havia se infiltrado na mentalidade da época. Ali, a religiosidade era usada de forma instrumental para encobrir as injustiças e manter o controle social, deixando os súditos à margem enquanto as elites garantiam suas prerrogativas.

Neste ambiente de tensão, o “cálice” assume um peso teológico e político radical. Na Última Ceia, Jesus antecipa ritualmente sua entrega e é sintomático que todos, inclusive o traidor, tenham bebido dele. Ali, revela-se que a participação no rito não é suficiente; o gesto torna-se vazio sem a coerência de quem se configura à “sorte da cruz”. Como ensinava Santo Agostinho, “Cristo bebeu primeiro o cálice da amargura para que a nossa fraqueza não recuasse ao bebê-lo” (AGOSTINHO, 2006, p. 145). No entanto, essa coragem deve transbordar em justiça, pois, como advertia São João Crisóstomo, “se não encontrares Cristo no mendigo à porta da Igreja, tampouco O encontrarás no Cálice” (CRISÓSTOMO, 2010, p. 82). Beber do mesmo cálice, portanto, não é um mero rito de adesão externa, mas um ícone de comunhão profunda com o destino do Mestre, que se faz Servo por amor.

Trata-se de uma disposição para o serviço que afronta a lógica do mundo. Enquanto os poderosos se servem do sangue alheio para tiranizar, Cristo oferece o próprio sangue para libertar. Essa disposição atinge seu ápice dramático e realismo mais cru no Horto das Oliveiras. Diante do cálice da amargura, Jesus experimenta o pavor humano frente à violência que rejeita o amor. A carne recua perante o peso das iniquidades: “Pai, se possível, afasta de mim este cálice” (Mt 26,39). Contudo, Ele decide embriagar-se da vontade do Pai até a última gota, transformando o cálice do sofrimento no vinho da Nova Aliança. Seu Fiat se confirma pela obediência absoluta, uma entrega fiducial da própria vida nas mãos do Pai (Cf. Lc 23,46; Flp 2,8; Hb 5,8).

Beber desse cálice é, portanto, um ato de resistência. É assumir um Reino que se implanta pela doação, e não pela força, afrontando a lógica dos grandes que oprimem para servir aos que sofrem. É aceitar a amargura das perseguições e do esvaziamento pessoal para que, no banquete da eternidade, se possa brindar à vitória da vida imperecível. O cálice que se bebe ao final é o fruto da videira fecunda que, unida ao tronco da vida e cultivada pelo Divino Agricultor, alegra o mundo com o triunfo sobre o inimigo já vencido.

Esta é a síntese da nossa fé: “O cálice da bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo?” (1 Cor 10,16). Compreendemos que o cálice não é um sofrimento isolado, mas uma comunhão (Koinonia) que nos une ao Cristo e uns aos outros. Como ensinou Bento XVI (2005), uma Eucaristia que não se traduza em amor concreto é em si mesma fragmentada; e como reforçou o Papa Francisco (2020), este culto deve nos levar a reconhecer o Cristo em cada irmão. Somente assim, mergulhamos nesta entrega total, realizando o autêntico “culto em espírito e verdade” (Jo 4,23), pois a liturgia do altar só se completa na liturgia da vida, como um único sacrifício de louvor e solidariedade universal. O lugar sagrado não é mais o Templo de Jerusalém, nem tão pouco o Monte Garizim, pois o único Templo Vivo é o Coração do Senhor que continua a pulsar no peito dos pobres e excluídos deste mundo. É neste único e verdadeiro altar que a dor partilhada e oferecida em libação no santo sacrifício se transforma em semente de ressurreição. O sacrifício de Cristo continua onde quer que a vida seja defendida.

Portanto, diante da indagação do Mestre — “Podeis beber do cálice que eu vou beber?” — a nossa resposta consciente não pode ser fruto de um empolgamento efêmero ou da busca por lugares de honra. Responder “Podemos!” exige a maturidade de quem compreende que o único e verdadeiro privilégio cristão é a associação ao Mistério Pascal de Cristo em sua cruz, morte e ressurreição. Como propõe o Papa Leão XIV, faz-se necessária uma espiritualidade encarnada, pois o afeto pelo Senhor é indissociável do afeto pelos pobres e marginalizados (cf. Dilexi Te, n. 3 e 5). Essa identificação, ontológica e sacramental, funda-se na graça do Batismo para todo o povo de Deus e se especifica na Ordem para os ministros, configurando-nos a Cristo-Servo no serviço aos irmãos (cf. Dilexi Te, n. 7). Beber deste cálice é, pois, a coragem de “tragar” as amarguras do mundo para transfigurá-las em esperança. É na liturgia da vida, junto aos marginalizados, que a fé se torna presença real, transformando o sacrifício cotidiano em semente de ressurreição e o serviço por amor no nosso mais alto título de nobreza.

¹ Nota explicativa: O “Cálice da Ira” é uma metáfora recorrente na literatura profética e sapiencial do Antigo Testamento (cf. Sl 75,8; Jr 25,15). Ele representa o julgamento divino sobre o pecado e as injustiças. No contexto da Paixão, Jesus, ao beber o cálice, assume voluntariamente as consequências do pecado da humanidade. Ele “esvazia” o cálice do julgamento para preenchê-lo com a misericórdia, transformando-o no cálice da benção oferecido na Eucaristia. Ele transfigura o castigo em redenção.

Referências Bibliográficas:
AGOSTINHO, Santo. Comentário aos Salmos. São Paulo: Paulus, 2006.
BENTO XVI, Papa. Carta Encíclica Deus Caritas Est. Vaticano: Typis Vaticanis, 2005.
CRISÓSTOMO, São João. Homilias sobre o Evangelho de Mateus. São Paulo: Paulus, 2010.
FRANCISCO, Papa. Carta Encíclica Fratelli Tutti. Vaticano: Typis Vaticanis, 2020.
LEÃO XIV, Papa. Exortação Apostólica Dilexi Te. Vaticano: Typis Vaticanis, 2025.