Papa aos luteranos: Cristo não seja uma "palavra estranha'", voltemos às raízes comuns
Em seu discurso aos representantes da Federação Luterana Mundial, Leão XIV destaca a natureza original da Confissão de Augsburgo, manifesto oficial dos princípios da fé protestante, como um “documento de reconciliação” dentro da Igreja. Ele espera que, em 2030, quando se comemorará o 500º aniversário do documento, seu potencial ecumênico seja reafirmado, redescobrindo uma herança “apostólica e pré-confessional” que une em Jesus
Vatican News
A história, por vezes, reinterpreta e distorce os significados, manchando um momento de reconciliação eclesiástica como divisivo. É o caso da Confissão de Augsburgo, a primeira exposição oficial dos princípios da fé protestante publicada em 1530, com um potencial ecumênico capaz de reunir duas confissões diferentes sob o único Cristo: não uma “palavra estranha”, mas uma raiz comum “capaz de realizar os anseios mais profundos da humanidade”. Assim, o Papa Leão XIV dirigiu-se à Federação Luterana Mundial, em seu discurso proferido na manhã desta quinta-feira, 1º de outubro.
Compreensão comum
O Pontífice agradeceu ao presidente da Fundação, o bispo Henrik Stubkjær, e à secretária-geral, a reverenda Anne Burghardt, por sua presença, e manifestou sua satisfação com o amadurecimento das relações entre católicos e luteranos ao longo das décadas, nos planos espiritual e teológico. Nesse sentido, ele relembra a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, assinada em 1999 em conjunto com o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, na qual se afirmava “uma compreensão comum de nossa justificação, operada pela graça de Deus por meio da fé em Cristo”.
A Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação foi assinada em 31 de outubro de 1999 na cidade de Augsburgo pelo bispo luterano Christian Krause e pelo cardeal Edward I ...
Além da “diplomacia eclesial”
Leão XIV relembrou as palavras de seu predecessor Francisco ao descrever o ecumenismo à Federação como um “caminho de graça” e não como “diplomacia eclesial”. De fato, ele não depende de negociações humanas, mas da ação de Deus, “que purifica a memória e o coração, vence as rigidezes e orienta para uma comunhão renovada”.
A comunhão renovada na fé apostólica, nos sacramentos e nos ministérios é a meta de nosso caminho ecumênico de graça, que percorremos juntos, guiados pelo Evangelho.
Redescobrir a herança apostólica
No caminho comum entre cristãos e luteranos, o Pontífice lembrou a próxima etapa em 2030, que marcará o 500º aniversário da Confessio Augustana, evento que pode se tornar uma “profunda experiência ecumênica” na perspectiva da “unidade plena e visível”. Em seguida, o Papa citou outro de seus predecessores, São João Paulo II, que, no 450º aniversário do documento, lembrou como ele havia sido assinado em uma época de ameaças à Igreja ocidental, com a intenção de “testemunhar seu credo em uma Igreja santa, católica e apostólica”.
A Confissão de Augsburgo foi originalmente concebida como um documento de reconciliação no seio da Igreja. Somente posteriormente passou a ser entendida como um texto de confessionalização divisiva. Com vistas a 2030, seria desejável que pudéssemos, mais uma vez, afirmar juntos o potencial ecumênico pré-confessional da Confessio Augustana. Dirijo um apelo sincero a todos os crentes, e em particular aos teólogos, para que concentrem sua atenção em Cristo e em seu Evangelho. Voltemos, com profunda devoção, às nossas raízes comuns, à fé da Igreja primitiva e aos Padres da Igreja, a fim de redescobrir a herança apostólica e pré-confessional que nos une verdadeiramente como irmãos e irmãs em Cristo.
Reconhecer Jesus como “fonte viva”
Leão XIV concluiu seu discurso expressando o desejo de que a própria figura de Jesus não se torne “estranha ao mundo”, mas seja testemunhada no ecumenismo, que o reconhece como “fonte viva capaz de satisfazer as aspirações mais profundas da humanidade”.